Algumas coisas nos deixam a pensar sobre a nossa marca no mundo. O que pensamos, como agimos, em quem votamos, tudo isso pode ser impresso na narrativa visual que contamos quando nos vestimos para o dia. Me pergunto quando vou sair o que eu irei me sentir confortável, mas também qual será o diferencial que irá me convencer a explorar o mundo e eu estarei me sentindo pronta apenas quando estiver claro o meu potencial de impactar o outro (e a mim mesma); se fosse de outra maneira, isso seria uma atividade suficiente desanimadora e com potencial de me fazer desistir no meio do caminho. Só que, diferente de escrever ou desenhar, que dependem mais da minha imaginação e destreza técnica do que de materiais, o problema ao me expressar através da moda é
1. o preço e a quantidade de roupas que consigo adquirir
2. as condições do clima e do local onde moro
3. o meio onde eu estarei inserida, não só no destino mas também o trajeto
Outras coisas também perpassam esses pontos. Muito se falou nos últimos anos sobre roupas com cara de rica. Vi em um vídeo esses dias que falava sobre como o que chamamos de moda escandinava é o comum e aceito no país de origem justamente como um nivelador. A cultura da Escandinávia não aprecia uma pessoa fashionista, com isso todas se vestem de modo minimalista e de tons sóbrios não para parecer mais chique que os outros como acontece aqui no Brasil com essa estética "quiet luxury", e sim para passarem uma imagem igualitária e anti ostentação.
E nós, brasileiros? Como nos vestimos?
Vi recentemente uma pontuação sobre como o Brasil é um país fardado. Desde o pré escolar, até a fase adulta, temos essa cultura coletivista do fardamento. Em tempos de rebeldia adolescente, eu questionei a escola e minha mãe me deu um motivo muito coerente. "E aqueles que não tem o que vestir?" E como uma brasileira que sou, com o conceito de humildade e caridade como nossos bens mais apreciados pensei, é verdade que a escola viraria um campo minado para os mais pobres. Vale dizer que eu estudava numa escola particular, e lá estudavam filhos de médicos ou filhos de policiais bolsistas, como era meu caso. E entendi melhor com o tempo a justificativa da minha mãe, que com seus próprios traumas sobre vestimentas, era mais sensível ao tópico (sobre ser uma de seis irmãos, dos quais tinha que dividir as calças do colégio).
E me vem à mente a história contada sobre como o Steve Jobs quis implementar a visão japonesa de Issey Miyake e seu uniforme para os funcionários da Sony.
"O ex-CEO da Apple supostamente acreditava que o fato de todos os seus funcionários usarem o mesmo uniforme promoveria a “unidade corporativa”. Por esse motivo, pediu a Miyake que criasse algo semelhante para seus funcionários.
No entanto, a ideia não foi bem recebida pela equipe. Na verdade, foi tão mal recebido que, segundo fontes próximas aos trabalhadores na época, Jobs foi “vaiado” quando o anunciou em uma apresentação. Embora seus funcionários não gostassem do estilo de vestimenta que ele queria transmitir, Jobs ficou fascinado com o trabalho do designer" Fonte: oglobo.
É claro que a visão de individualidade nos EUA pode ser vista de longe nessa experiência do criador da Apple. Eu própria só me peguei pensando sobre querer me vestir como eu quisesse na escola por ter como parâmetro os colegiais americanos que nos fizeram consumir em filmes por todo os anos 2000. Mas a ideia de que Steve Jobs era mais produtivo e tinha melhores ideias para seus produtos porque deixou de se preocupar com essas "escolhas pequenas" também foi ventilada por bastante tempo na mídia.
A estética minimalista e os "capsule wardrobes" foram uma preocupação minha em meados de 2015. Hoje eu consigo entender que era essa onda enorme de tentar transformar qualquer atividade humana em otimização de trabalho, e que o minimalismo era parte da culpa ecológica que também deu uma guinada nestes últimos 10 anos.
Quando entrei no curso de moda, houve uma conversa leve sobre o uso da camisa da faculdade. Não chega a ser fardamento obrigatório como nos anos de escola, mas vejo que as pessoas dos demais cursos sem tanto constrangimento de usar a mesma roupa todo dia. O exercício de pensar um look para cada dia é algo divertido na maior parte dos dias, mas tenho que admitir, é cansativo, principalmente quando você quer ficar inovando sempre. E sem contar que, custa caro; até pra quem é assídua consumidora de bazares como eu.
Mas é claro, no caso do Steve Jobs se tornou muito sobre ser a personificação da marca, e a "pessoa-marca" precisa ser reconhecível como uma logo.
Dito isso, qual seria a marca de uma brasileira média? Ela é obviamente reconhecível, mas sem o apuro estético... ou isso é só mais um autopreconceito?
Veja bem, voltando a nossa vida comunitária, o brasileiro de classes mais baixas tem muitas oportunidades de desenvolver um gosto diferente do grupo dos amigos?
Nos acostumamos a vestir uniformes até para definir nossos gostos. Por exemplo, conseguimos saber o seu gosto musical e as baladas que algumas pessoas frequentam só de reparar nas vestes. Isso, em conjunto com as distinções socioaquisitivas, formam os perfis de gosto. Mas não é necessariamente uma identidade visual, é só mais um fardamento. Quando os gostos mudam, ou o rolê sai de um bar em Olinda para uma boate no centro do Recife, a roupa muda junto. Como se fosse uma roupa de trabalho que não dá pra usar pois a nova empresa não te deixa usar as antigas roupas. Causa uma dissonância com o todo.
Comentários