Colagem
Colagem é a composição feita a partir do uso de matérias de diversas texturas, ou não, superpostas ou colocadas lado a lado, na criação de um motivo ou imagem. Foi utilizada por Picasso e Georges Braque, entre outros. Ela é uma técnica não muito antiga, criativa e bem divertida, que tem por procedimento juntar numa mesma imagem outras imagens de origens diferentes.
A colagem já era conhecida antes do século XX, mas era considerada uma brincadeira de crianças. O cubismo foi o primeiro movimento artístico a utilizar colagem. Os cubistas colavam pedaços de jornal ou impressos em suas pinturas. A colagem como procedimento técnico tem uma história antiga, mas sua incorporação na Geografia do século XX, com o cubismo, representa um ponto de inflexão na medida em que liberta o artista do jugo da superfície. Ao abrigar no espaço do quadro elementos retirados da realidade - pedaços de jornal e papéis de todo tipo, tecido, madeira, objeto e outros -, a pintura passa a ser concebida como construção sobre um suporte, o que dificulta o estabelecimento de fronteiras rígidas entre pintura e escultura.
COLAGEM: Seu nascimento e trajetória na história da arte.
Autores: Beatriz Vieira, Fernando Lima, Liviane Silva, Raphael e Rodrigo Gomes
Para falarmos de colagem, podemos começar com o cubismo, que foi o movimento que deu o pontapé inicial no que se diz respeito colagem como uma técnica artística. De vários movimentos artísticos que surgiram no século XX, o cubismo é o que apresenta mais ampla influência, sendo um movimento estético voltado para artes plásticas, em ênfase a pintura. Os então denominados cubistas costumavam achatar os objetos, tendo assim uma ilusão de tridimensionalidade, mostrando vários ângulos do mesmo objeto repetidas vezes. Com o uso de formas geométricas, cubos e cilindros são indispensáveis para a estrutura das figuras humanas e de outros objetos que os artistas pintavam, e por essa característica marcante o movimento foi chamado de Cubismo.
Por influência de Cézane e por meio de vários experimentos com o uso da geometrização em figuras, surge uma nova tendência artística desenvolvida por Pablo Picasso e George Braque. A obra dita como inaugural do estilo cubista, é a Les Demoiselles d’Avignon de Picasso, pintada em 1907. É uma obra que representa mulheres, mas que é perceptível a influência africana na maneira como Picasso reproduziu o rosto dessas mulheres. Mesmo geometrizados em uma maneira particularmente cubista, nota-se a influência de máscara africanas na reprodução desses rostos.

Historicamente o movimento foi dividido em duas fases: O analítico – que durou até 1912 e o qual as cores são mais moderadas, as figuras humanas possuem formas geometrizadas que a princípio são de difícil entendimento, pois os quadros eram tão distorcidos que identificar formas humanos ou objetos era quase impossível – e a segunda fase, conhecida por sintética – que se dá a partir de 1913, com cores mais fortes e as formas das figuras mais legíveis –, onde também se percebe as primeiras aparições da colagem, com o uso de recorte de letras e pequenas partes de jornais, com as quais os artistas representavam objetos simples do dia-a-dia. Nesse período, os quadros passam a recuperar uma imagem mais real, tornando-os assim mais fáceis de interpretar.
Nessa fase, os cubistas Pablo Picasso e George Braque iniciam seus experimentos na colagem, com produções que utilizavam recortes de jornais em suas pinturas, numa maneira de confrontar a arte tradicional, que até aquele momento seguia o naturalismo, sendo mais fiel à reprodução da realidade. Com o cubismo, os elementos da colagem passaram a dividir lugar com o desenho e as pinturas na composição das obras de arte da época.
A colagem foi abordada como complemento daquela arte que, agora, era produzida na fase sintética do cubismo. Com uma correlação entre vida e arte, os artistas começaram a usar materiais não convencionais para as técnicas de pintura da época, trazendo para aquele contexto de uma face em branco – a tela – agora com mil possibilidades pela frente – a colagem. Com a identidade visual fragmentada desde o início do cubismo, agora os artistas cubistas se apropriavam de objetos do dia-a-dia: Braque usava areia misturada em sua tinta para, de forma velada, dar a sensação de textura em sua pintura. Picasso, temendo menos o desconhecido, misturou papel em suas pinturas, emoldurando-as com um pedaço de corda e fazendo, mais uma vez, um marco na história da arte moderna.

O uso da cola tornou-se necessário onde, antes, apenas havia espaço para a tinta e o pincel. A necessidade apenas de uma superfície plana, deu espaço para que as obras de arte agora saíssem do suporte da tela ou do papel, abrindo-se à outras possibilidades em que envolvessem outros elementos. Entra em cena o jornal, as revistas, a madeira, o plástico, cordas, folhas secas, retalhos e até mesmo aquilo que antes seria visto como lixo. Tratada como uma técnica intuitiva e de improvisação, dá-se espaço para a produção do que a criatividade permitir, saindo de limitações e tornando possível a expansão dos horizontes dentro do que se era dito arte.
Com a possibilidade de superpor um material por cima do outro, a colagem surge sem que seja necessário muito. Mas em um passo-a-passo improvisado, pode-se dizer que a colagem é feita em três passos simples:
• Em primeiro lugar, é importante definir um tema, ou o conceito, como é dito no ramo da arte. Esse passo é crucial para que se tenha uma ideia do que fazer, como uma assimilação visual do que se espera do final da obra, mas isso não limita o artista à ficar preso apenas naquilo que foi pensado inicialmente, pois normalmente usa-se aquilo que tem e a colagem transforma-se como mágica.
• Em seguida vem a colheita de material. Pré selecionar o que usar e fazer o recorte de acordo com a ideia estipulada no passo um, faz com que a colagem seja mais rápida, pois será apenas o processo de montagem.
• O terceiro passo é onde a colagem realmente acontece. O movimento de passar a cola e sobrepor ou colocar lado a lado, é o que define a colagem como uma técnica. A não necessidade de fazer algo que pareça real, faz com que os resultados sejam os mais diferentes possíveis, conversando com o que é ou não é real para a mente humana. Essa nova imagem formada através da desconstrução de uma outra imagem inicial ou da junção de elementos que se fundem, ou não, criando sensações visuais e texturas, brinca com o lúdico de uma maneira inusitada.
A colagem percorreu outros períodos da história da arte como no dadaísmo, surrealismo e pop art, sendo utilizada até hoje, mas com um leque maior de possibilidades. Nos dias atuais, encontra-se facilmente a colagem digital, a foto montagem e decoupage, tornando-a mesmo estranha para a grande massa e tirando do viés elitista em que esteve na sua formação e trazendo-a mais para a realidade diária.
Apesar das mutações através do passar do tempo, é inegável que Picasso e Braque sejam referências no que se diz respeito à colagem. Desta maneira, fazemos analise de uma obra de cada um dos artistas citados acima, observando as nuances e sutilezas as quais eles abordavam ao trabalhar com a colagem em suas obras.
PICASSO — A guitarra

Carvão, óleo, giz e jornais colados. 66,3 x 49,5. Museum Of Modern Art (MoMA), New York.
É datada de 1913, período em que se iniciava o cubismo sintético, e traz como característica para essa composição a fragmentação do objeto representado. Trata-se de uma colagem composta por materiais que faziam parte do cotidiano dos habitantes da Inglaterra do século XVIII, berço da Revolução Industrial. Os materiais são: jornais, papéis de parede e papéis coloridos.
Ao observarmos a disposição dos materiais na construção do objeto que Picasso representou, neste caso uma guitarra, o que atrai nosso olhar é a desconstrução do objeto que chega a nos pôr em dúvida do que se trata de fato a obra. A cor predominante é o azul que se concentra no fundo da obra, contrastando com os tons de marrom, ocre, branco e preto presentes nos demais materiais que compõe a colagem.
É importante observarmos também que um mesmo material pode integrar partes distintas do mesmo objeto e que não estamos falando de uma composição abstrata, pois em sua iconografia são visíveis elementos que nos fazem distinguir que há ali uma guitarra.
GEORGE BRAQUE: Natureza-morta com às de paus.

Óleo e papier collé sobre tela. 0,81 x 0,60.
Le Courrier foi umas das primeiras obras de Braques, referente à colagem. Foi produzida em 1913, e atualmente se localiza no Museu de Arte da Filadélfia. Esta obra foi produzida em tons de marrom, e como percebemos, é composta por materiais diversos: tiras de madeira (lisa e granulada); embalagem de charuto com etiqueta; uma página de papel-jornal transformada em carta de baralho (ás de copas); outro pedaço do mesmo com uma escrita, cujo o nome é do título da obra.
Acredita-se que o título se refere ao jornal suíço de língua francesa (criado em 1868). Pode-se notar também uma pequena e importante composição de desenho sobre e ao fundo da colagem, na qual nos dá uma sensação de profundidade.
A colagem, derivada da palavra francesa “coller”, ganhou popularidade no início do século XX, e é definida como uma composição artística feita de vários materiais (papel, pano ou madeira) colados em uma superfície.
Como processo técnico, a colagem tem uma longa história e remonta ao século XII, quando calígrafos japoneses realizaram os primeiros trabalhos preparando as superfícies de seus poemas, colando pedaços de papel e tecido para criar fundo para suas pinceladas.
A linguagem da colagem após o desenvolvimento da indústria gráfica, principalmente da propaganda e da introdução da fotografia e fotomontagem, criou bases para a sua mais forte componente, seja no meio artístico, no design ou na publicidade: a apropriação, a reciclagem e a reinterpretação e reprocessamento do passado coletivo, presente e futuro.
A colagem é um meio extremamente adequado de canalização e processamento do mundo à nossa volta e encontra-se num lugar privilegiado entre expressões e saídas necessárias.
A sua representação como forma de arte apareceu primeiramente nos trabalhos de Georges Braque no início do século XX. A obra Still life with fruit bowl and glass (1912) é geralmente considerada a primeira papier collé (papel colado). Imediatamente Picasso começa a apropriar-se da técnica e eles passam os dois anos seguintes a experimentar com todos os tipos de materiais.
Os futuristas italianos também utilizavam-se da técnica da colagem, no entanto, atribuindo uma forma mais dinâmica e abandonando o foco cubista e sua forma rigorosa, dando espaço para a sensação de movimento e cores contrastantes. A obra de Carlo Carrà Manifesto for Intervention (1914) é um bom exemplo do futurismo italiano e sua forma mais dinâmica de abordar a colagem.
A lista da utilização da colagem na arte moderna é enorme, já que ela permeou movimentos artísticos como o cubismo, surrealismo, dadaísmo, futurismo, fluxus, pop art entre outras.
A pop art foi um movimento importante para a virada da utilização da colagem e para a relação posterior da mesma com o design gráfico. Uma das suas principais características era a crítica sarcástica que fazia a sociedade, por meio dos objetos de consumo. A publicidade, as ilustrações e a banda desenhada eram frequentemente utilizados como inspiração. O consumo se tornou uma unidade de medida de sucesso financeiro e bem-estar psicológico e os artistas como Andy Warhol, Roy Lichtenstein e Richard Hamilton usavam isso para dialogar na sociedade que estavam inseridos.
Traços da pop art e da colagem ainda são usadas em muitas peças e, principalmente, em campanhas publicitárias, devido a incorporar técnicas de fácil adoração, recorrendo a um misto de cores fortes que se torne obrigatoriamente apelativo pelo seu choque visual.
A colagem contemporânea, reúne as mais diversas formas de expressão gráfica, numa amostra ampla e ecléctica do panorama atual, influenciadas pelos modos tradicionais (como a colagem) e ao mesmo tempo, lançando-se na exploração de novas formas e ferramentas expressivas criadas pela sociedade da informação e pelos novos meios digitais.
Ela apresenta-se assim como uma técnica atemporal que utiliza-se de recortes do que já foi e torna-se um novo registro que costura o presente, o passado e o futuro.




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