13 Reasons Why... porque eu não gostei?!

Acabei de maratonar essa série. Sempre quis ter lido o livro, mas nunca encontrei ninguém que tivesse. A premissa me interessou. A ideia de explicar o que leva alguém ao suicídio é muito pouco explorada, e mostrar os porquês de uma menina que "tinha tudo" tirar a própria vida.
Imaginei que falariam de depressão, dos sentimentos de vazio, não exatamente de motivações físicas, mas como a ideia do suicídio cresce numa pessoa.
Mas não. Mesmos clichês de sempre.
Ela sofre com as mentiras que contam sobre ela.
Os amigos a "abandonam".
Menina sempre precisa ser estuprada.
...
O menino que ela curtia "não gostava dela o suficiente pra se importar".
Ah, puta que o paril; estou puta, puta de verdade.
Mas vamos por partes. No final eu vou dar o meu veredito sobre a Hannah.
Sobre a Hannah, não sobre a série.
Sobre a série eu digo logo: arrastaram demais pra caber em exatos 13 episódios. Deviam ter feito em 8 no máximo. A interpretação dos personagens deixou a desejar, mas vou passar por cima porque eles pelo menos parecem ser adolescentes... talvez os moleques sejam realmente novinhos. Os takes são até bonitos, mas mal sincronizados, tem várias coisas sem necessidade, como eu disse, pra caber nos tantos episódios. Trilha boa, mas muito lerda. Os personagens pareciam frenéticos demais para os barulhos de fundo.

Mas não, nem de longe a melhor série de 2017. Se a netflix não fizer nada melhor do que isso até o fim do ano, eu desisto das séries dela.

Mas chegaremos à história ainda. E essa eu não posso dizer se é culpa dos roteiristas, dos diretores ou da história do livro que ela foi baseada. Não posso dizer porque eu não li e nem lerei. Vamos falar dos furos apenas da série, mas não vou culpá-la, talvez a original seja assim.

Os porquês:

Hannah Baker não tinha amigos...
... porque ela era uma garota que esperava que todos a seguissem, que todos fossem atrás dela por informações, e isso foi a impressão que eu tive no começo da série, e no último episódio foi fincado a ferro com a tentativa de culpar um conselheiro da escola. Veja, o caso do qual ela revelou pra ele foi sério, e não suporto como as coisas são quando se não pode fazer nada sobre uma vítima de assédio. Mas a Hannah nem ajudou uma amiga em necessidade, nem avisou pra ela, nem denunciou o agressor, que mais tarde se tornaria o seu próprio carrasco. Basicamente, ela não era só covarde, ela compactuou com um crime, o escondeu, e mesmo sendo vítima do mesmo crime pela mesma pessoa, ela ainda não quis denunciar. Ela esperava que alguém fosse atrás dela, quando ela mesma não deu opções às pessoas; É quase ridículo o quanto era algo notável o fato dela necessitar que alguém ficasse tentando consertar os cacos dela. Desde o primeiro capítulo. Ela considerava legal ter amigos para reclamar da vida num café. E tudo bem, eles se juntaram com pessoas potencialmente agressoras, mas... se a única opção fosse ela, a menina que ama reclamar da vida sendo bonita, com um pai que compra um carro novo para que ela vá numa festa. Isso me faz passar para o outro problema que me irritou muito;

Hannah Baker era uma típica menina branca, bonita, classe média, com pais amorosos...
... e ela resolve culpar pessoas que ela se dizia amiga, mas que eram tão emocionalmente frágeis quanto ela, até mais. E transformou a vida deles num inferno. Primeiro eu estava até tentando entender, por quê danado ela estava torturando o pobre do Clay? O que danado ele fez? Pra no fim ela dizer que não era culpa dele. Óbvio que não era, o cara era mais socialmente inapto que ela, tinha problemas de ansiedade diagnosticados, e ela faz tudo parecer como se fossem culpa das pessoas que a amavam/ou não agiram do modo que ela queria. São adolescentes, assim como ela.

 Ela não fala da família, ela não fala do estado financeiro deles como algo importante (fora um único acidente contado já um dia antes dela morrer), nem que ela não conseguia se expressar e se privou de algo que poderia tê-la ajudado a enfrentar seus problemas (o clube de poesia)...
Ela é/ era uma rainha do drama, queria as atenções nela, como eles dizem, e isso não é mentira. Ela fez 13 gravações que comprovam exatamente isso.
 E isso, meus amigos, é um puta desserviço à sociedade, tratar suicidas como reis do drama.
A ideia era exatamente o contrário do que deveria ser feito.

Hannah Baker não tinha motivos pra viver...
... porque se afastava de tudo e qualquer coisa que poderia fazer bem a ela. Até agora eu não entendi em suma, o porque dela tratar todo mundo mal. Primeiro com o stalker. Ele era um idiota sim, mas ele foi desdenhado por ela. Foi vingança. Mas ela poderia ter sido mais empática. E não iríamos para o próximo problema, ela basicamente quis desvalidar um argumento válido de uma menina asiática criada por pais gays e que não queria ser motivo de falácias por conta disso. Eu acho isso um motivo válido. Mentir sobre coisas é errado, culpar a vítima do final foi errado, mas eu entendi as motivações. O carinha da revista e do clube de poesia ela trata mal sem nenhum motivo aparente, e o cara tenta revelar ela, como a boa escritora que era e ela deu um ataque correlacionando com tudo o que ela já achava do cara antes, sem nenhum contexto. Ela tem uma amizade esquisita com um latino gay que nunca tem nenhuma interação com ela, mas que se acha no direito de sacanear todos os outros motivos, porque... ela deu as fitas pra ele?!

Hannah Baker faz tudo parecer que todas as coisas estão conectadas...
... mas elas não estão, e todo o papo de borboleta e furacão, não tem nada a ver com as histórias levando uma à outra. Na verdade, quase nenhuma está conectada. O fato dos amigos terem se afastado pra namorar não tem a ver com o ataque que ela sofreu do vilão da série . Ela ter sido o motivo da outra ter que sair do armário não tem relação com ela ter se escondido no armário enquanto a amiga era estuprada. O fato do carinha que ela gostava e que ela gostava também nunca terem desenvolvido nada não é a causa dela ter contribuído indiretamente, e totalmente indiretamente para um acidente de trânsito. Sério, nada disso está relacionado.
E ela torturou psicologicamente todo mundo por nada.

Hannah Baker não queria ajuda...
... ela não procurou ajuda quando foi procurar o conselheiro. Ela queria uma última desculpa. Por isso ela já começou com 13 motivos, não 12.
 Ela falou coisas sem sentido pra uma pessoa que lida com isso todo dia. E não, não era culpa de ninguém que ela nunca disse que pretendia se matar. A menina do café também aparenta muitos problemas mas ninguém foi lá correndo atrás dela como um cachorrinho como o Clay. Ninguém foi atrás do Justin Foley sabendo que ele estava bem ferrado com a mãe e o padrasto. O fato de você não procurar ajuda não

Droga, eu juro que não queria por a culpa na vítima. Não queria mesmo. E ela foi uma vítima.
Machismo, de bullying, de calúnias e de abuso sexual.
E isso é sim motivação suficiente pra acabar com a vida de alguém.
Mas isso não é real.
É uma obra fictícia tentando mostrar um lado verdadeiro da adolescência e falhando miseravelmente.
Porque tudo o que foi mostrado foram adolescentes lidando com altas merdas, e uma filha da mãe que se matou querendo infligir dor e culpa a cada um deles.
Tivemos vítimas de bullying e violência física, maus tratos, homofobia, violência familiar, vício em drogas, em bebidas, que lidam com cutting, e sério... tivemos uma menina que se sentiu no direito de por todos eles em situação de stress (podendo até causar outra morte, meu Deus, uma pedrada na janela daquele stalker e ele teria sido assassinado), menos o cara babaca que causou a "queda de sua reputação" e finalmente a estuprou. Que estuprou sua amiga. Ela não quis denunciá-lo; E isso me tira do sério.


Hanna Baker era uma egoísta (como eu odeio essa palavra, ainda mais nesse contexto, porque normalmente eu não acharia isso).
Não por ter se matado, não por não pensar nos pais ou nos amigos. Mas porque não foi condizente com o que queria passar. O única coisa que ela podia e devia ter feito ela não fez. Mas ela não morreu por isso. Ela morreu porque queria que as pessoas se sentissem péssimas.
E eu digo, não é o que suicidas querem.
Não era o que eu queria.
Eu tento pensar que não era o que suicidas querem.



Sobre a duas cenas de estupros sendo repetidas dezenas de vezes e uma cena potente e de causar enjoo de pulsos sendo cortados... eu vejo o quanto a nossa geração tem um fetiche estranho pelo sofrimento, e pelo drama. Porque a cena toda foi filmada de um jeito milimetricamente pensada para ser forte, mas não tão repulsiva a ponto de te fazer desligar. Ela foi feita pra ser mais bonita do que qualquer outra coisa. Assim como aquelas imagens tumblr de gente cortada, imagens de meninas magras para ilustrar o quanto a anorexia é "amada e odiada"... é feito pra ser bonito, é feito como uma peça de arte. E agora eu entendo a ideia da romantização do suicídio que eu falei em um vídeo alguns meses atrás.
Eu nunca tinha visto desse jeito até que eu comecei a ver o quanto essa série está sendo endeusada por muitos jovens, mesmo essa não sendo uma imagem correta, não a que deveria ser passada.
Estão falando muito em não seja um porque. Como se fosse responsabilidade dos outros uma decisão só sua. E não é assim.
É claro que existe uma campanha antibullying ali no meio, mas muito se deve à vitimização da Hannah.
E putz, mais uma palavra que eu odeio, mas se encaixa perfeitamente aqui.
Existe isso de que uma menina violentada nunca mais vai poder se recuperar, não vá ter nunca como viver a vida sem pensar nisso, mas é mentira. Isso nos caracteriza como fracas, nos expõe como seres que precisam ser cuidados, e não somos flores. Não devemos ser cuidadas, a gente tem que aprender a se defender, e a denunciar. Coisas que nem depois da morte a Hannah tem coragem de mandar fazer.

Qual era a ideia dessa série, afinal? Até o final não há condenação ao agressor, aparentemente, nem possibilidade disso acontecer. Imaginei se a segunda temporada irá falar sobre o possível "atirador de Columbine", como esse stress todo pode causar uma reação de violenta de algum desses adolescentes frágeis que a suicida decidiu infernizar. Não sei mesmo, porque isso sim tornaria ela numa vilã, já que ela mesma acusa as várias coincidências e desgraças, como sendo a causa real da morte dela e não o sentimento de vazio, ou de revolta com o sistema (mas que ela nunca tentou lutar contra).

Enfim, odiei.

Se eu fosse um pai, e eu sou, mas ainda me coloco no meio termo entre mãe e adulta / jovem que já passou por isso tudo que a Hannah Baker passou (menos o carro, obviamente, aquela foi ridícula), bem, a questão é que eu realmente iria ficar muito puta se um filho estivesse vendo essa série e sofrendo pela morta.
Me sinto puta também porque não iria querer ser comparada com essa... eu não sei nem como chamá-la;
Eu não acho que ela é idiota, não pelo suicídio. Egoísta, imatura, mais traíra, mas essa não é a palavra certa ainda.
O sentimento que eu tenho é apenas que ela mereceu morrer. E infelizmente não consigo deixar isso passar.
Se por uma reviravolta da série ela ainda estivesse viva, eu iria querer que ela estivesse morta. Porque foi muita sacanagem. Muita mesmo. E não sei como as pessoas não veem isso, porque mesmo os telespectadores vendo pela visão do Clay, ainda assim não tem como não ter raiva dela quando ela põe o nome dele numa lista que ele nem deveria estar. E não sou nem eu falando, é a própria personagem.

Uma palavrinha a mais só pra falar do processo judicial e sobre os pais da Hannah. Nunca concordei em pedir indenização pelo suicídio de uma pessoa, sendo que foi decisão dela. Não achei que isso deveria ter entrado em foco, o quanto os pais da menina iria receber por um acordo. Mas sinceramente, a própria não ligava para os pais, e se aqueles que estavam com a fita passassem logo pra polícia ou para a família, como deviam ter feito desde o início, essa parte constrangedora do que acontece depois não seria escancarada de modo tão horrível.
No fim, a série mostra o quanto há um abismo enorme de confiança entre os adolescentes e adultos. Não, eles não tem problemas de compartilhar, é só que eles não querem compartilhar com alguém que pode fazer alguma coisa a respeito. E isso é outra coisa imbecil que você fica se perguntando todo o tempo da série... porque eles não denunciam nada? É outro problema na série que é abordado de modo terrível. Não há resolução pra isso, nada que faça os adultos serem mais abertos ou os jovens mais propícios a se abrir. Tudo foi pensado pra chocar,  mas aquilo continuou lá, o problema principal continua lá. Nada muda.

Essa não foi uma resenha, foi um desabafo. Eu estou com muitos sentimentos aflorados depois dessa série, nunca poderia ser imparcial a essa assunto. Mas estou péssima de verdade porque eu sei que nada foi abordado de modo diferente e todos os esteriótipos ainda estão lá.


Comentários

Anônimo disse…
Ufa... Se eu sou o diretor mandaria uma carta pedindo sinceras desculpas e prometeria mostrar esse drama real que é o suicídio por sua ótica que faz todo sentido. Ah muito mais a se dizer e mostrar do que clichÊs. Vc como sempre muito lúcida em suas palavras. Gostei. bjss

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